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Reflexões sobre as cartas de Madre Mazzarello

Roma, Casa Generalizia FMA
13 de maio de 2003.

 


                 SIMPLICIDADE DO CORAÇÃO
               Reflexões sobre as cartas de Maria Mazzarello
                                                               Anselm Grün

 

Ao ler as cartas de Maria Mazzarello, o que logo me impressionou foi a simplicidade do seu linguajar e da sua espiritualidade. Na tradição espiritual, a simplicidade do coração sempre foi um sinal de espiritualidade genuína. Os monges a chamavam de pureza do coração.
O coração simples é claro e repleto do Espírito de Deus. Vê as coisas como são. Não interpõe as próprias áreas de sombra nas coisas e na consideração das pessoas. A simplicidade é sinal de que se conhece bem a si mesmo, e se aceita com todas as próprias zonas de sombra. O coração é simples porque se tornou um com Deus.
O coração simples de Maria Domingas Mazzarello é ao mesmo tempo penetrado de uma grande alegria. Continuamente ela repete em suas exortações: “Estejam sempre alegres!”. Esta não é a exortação formal de uma pessoa que não é feliz, ao contrário, manifesta a serenidade de quem escreve. Percebe-se isso no modo com que descreve as irmãs, relata os acontecimentos e se dirige ao destinatário com certo humor. Sobretudo se demonstra o humor de Maria no modo de falar de si mesma.
O seu estilo não tem nada a ver com a tendência a desvalorizar-se, que o século XIX conhece em muitos religiosos. A Santa fala do seu amor próprio, deste modo: “Eu tenho tanto, tanto amor próprio que a cada momento tropeço e caio por terra como um bêbado” (C 9,9). Pode escrever assim somente uma mulher que tem uma certa distância interior de si mesma, que sabe rir de si e olhar com serenidade os próprios limites, sem desprezar-se.
A simplicidade do coração revela-se também no modo como Maria escreve sobre a situação de cada casa. Não é um estilo melífluo com o qual as realidades são cobertas por um manto espiritualista. Maria diz as coisas como são. Não usa embustes para embelezar as situações candentes. Em todas as dificuldades, não se sente nela nenhuma disposição para o humor depressivo ou choroso. Aceita as situações assim como são. Fala, por exemplo, abertamente das saídas do Instituto, sem condenar as irmãs que deixaram a comunidade. Dá relação da morte de irmãs jovens, mas o faz sem ênfase e sem auto-compaixão. Pelo contrario, é óbvio para ela que todas foram para o Paraíso. E também sabe escrever sobre o Paraíso de um modo bastante humorístico, sem o estilo muito solene que caracteriza certos manuais de espiritualidade.


1. Características da espiritualidade de Maria Mazzarello
Colhe-se a espiritualidade de Maria Mazzarello nas exortações que ela dirige às suas irmãs. À diretora de Montevidéu, Ir. Ângela Vallese, escreve: “Anime-as a ser sempre humildes e obedientes, amantes do trabalho, a agir com reta intenção, a ser límpidas e sinceras, sempre e com todos. Conserve-as sempre alegres, corrija-as sempre com caridade, mas nunca perdoe nenhum defeito. Um defeito corrigido logo é nada às vezes, se ao invés se deixa que crie raízes, é preciso depois muito esforço para erradicá-lo” (C 17,1). Na mesma carta, ela continua: “Esteja alegre e não tenha tanto medo dos seus defeitos, de não poder corrigir todos de uma vez; mas faça-o pouco a pouco, com boa vontade de combatê-los, nunca fazendo as pazes com eles todas as vezes que o Senhor lhe permite descobri-los; faça o que puder para emendar-se e verá que aos poucos vencerá tudo! Coragem então, grande confiança em Deus e um bom espírito de desprezo de si mesma, e verá que tudo irá bem” (C 17,4).
Obediência
Acentuar a obediência e a humildade poderia parecer hoje muito suspeitoso. No entanto, precisamente no início de uma comunidade religiosa, era a obediência a virtude que contribuía para amalgamar a comunidade. Sem a obediência a comunidade não teria conseguido realizar o que alcançou por meio dela. A obediência é a disposição para colocar-se a serviço das necessidades da comunidade.
Maria não fala da obediência de modo idealizado, mas com sobriedade. A obediência é simplesmente necessária para que a comunidade possa ter sucesso. Para ela a obediência está em estreita relação com a confiança. Frequentemente aconselha suas coirmãs a confiarem nas diretoras. Às vezes há razões para isso. Evidentemente havia diretoras com as quais as irmãs tinham dificuldade. Maria solicita a confiança. Não moraliza e nem ordena a obediência, embora seja ela a superiora. Em vez disso, procura encorajar as diretoras. Ela admite que têm os seus limites, mas que se deveria também reconhecer a boa vontade. A obediência a estas concretas diretoras está em função da un